O Brasil no New York Times
Deu no New York Times, escrito por Larry Rohter, jornalista do New York Times no Brasil durante quase uma década, permite-nos conhecer o Brasil na ótica de um americano. O livro está estruturado em distintas seções: sociedade, política, Amazônia e ciência / tecnologia. Cada uma destas seções contem um ensaio como introdução que realmente condensa as principais idéias dos artigos que são apresentados a continuação.

Os ensaios que precedem cada seção são muito interessantes e ilustrativos tanto que podem ser lidos independentemente do resto do conteúdo do livro. A qualidade dos artigos varia de um a outro, dentro de cada temática e entre as temáticas. Por exemplo, achei os artigos sobre política exterior bastante superficiais, embora a análise prévia seja correta; também achei alguns artigos sobre cultura bastante pesados de ler, mas no conjunto é uma coleção completa de artigos publicados na última década no NY Times sobre o Brasil.
Para um europeu como eu, morando no Brasil, é fácil se sentir identificado e concordar com muitas das opiniões de Larry Rohter comentadas em cada um dos ensaios que antecedem cada capítulo do livro. Considero-o um livro muito recomendável para qualquer estrangeiro que decida morar no Brasil, já que é sem duvida uma introdução acelerada a cultura e paradigmas brasileiros.
Também considero um livro interessante para um brasileiro, já que o permite conhecer seu país desde a perspectiva de um estrangeiro, casado com uma brasileira, e que morou durante muitos anos no país, e que por todo esse conjunto de fatores é capaz de sentir e perceber as realidades existentes no Brasil desde uma posição diferente a de um brasileiro por sua bagagem cultural de americano.
A continuação, vou comentar algumas das idéias principais que são relatadas em cada um dos ensaios que precedem cada capítulo, assim como minhas percepções pessoais que são bastante semelhantes – embora eu tenha morado no Brasil muito menos tempo que Larry – e que sem duvida acho serão interessantes de compartilhar com vocês.
Sociedade
O primeiro ponto comentando sobre a sociedade brasileira é que ao contrario do que pensam muitos brasileiros, ser estrangeiro no Brasil não é tão fácil. Larry comenta, utilizando o modelo da psicóloga de Elizabeth Kubler-Ross como é o processo de adaptação ao Brasil.
Um estagio inicial de deslumbramento, que é a percepção que tem quase todos os estrangeiros quando visitam Brasil. A natureza, as pessoas, as praias, o sol, a musica, a comida, a cultura, todo o conjunto da sociedade brasileira aparece como algo maravilhoso e único comparados com as sociedades mais monótonas de Europa o da América do Norte. Esta percepção de tudo ser maravilhoso no Brasil é a que a imensa maioria de turistas ocidentais leva com eles ao voltar para seus respectivos países, a não ser que tenham sido assaltados o que provavelmente terá destruído essa imagem do paraíso, e que infelizmente as vezes acontece.
O seguinte estagio que somente experimentam os estrangeiros que se instalam no país de forma permanente é de decepção e depressão ao conhecer o pais de forma mais profunda e não tão superficial. Durante essa fase, a gente começa a descobrir outras realidades do país não sempre tão maravilhosas, como são a terrível pobreza que padecem grandes camadas da população, a violência existente no cotidiano da vida do país, a corrupção, ineficiência de muitas instituições públicas, as diferencias sócias tão marcadas, a discriminação racial e outras tantas mazelas que não são exclusivas do Brasil e que afetam a muitos países no mundo.

Chegado a este ponto, muitas pessoas desistiriam – a maioria provavelmente – ao questionar se realmente merece a pena continuar sua vida assim. A não ser que tenham um interesse permanente no Brasil como uma esposa, o simplesmente não tenham outra opção por não ter condições para escolher outro destino. Com o tempo, e por último, se chega a uma fase de aceitação onde se aprende a viver com a realidade do país sem questioná-la, aceitando-la tal e como é.
Durante minha vida percorri uns trinta países diferentes na America, Europa e Ásia. Em alguns deles fiquei só uns dias ou semanas, em outros foram bastantes meses. Se algo aprendi sempre ao viajar é aceitar cada realidade de cada sociedade tal é como é, sem questionar os valores, normas e princípios que governam o comportamento dessas pessoas. Somente assim é possível aprender da viagem, crescer como pessoa, e obter algum beneficio da experiência.
Um dos erros mais habituais dos viajantes provenientes de países desenvolvidos é querer que tudo seja exatamente como seus países de origem. Afortunadamente, não é assim. A realidade de cada país, a sociedade, a cultura, as condições econômicas, variam enormemente de país a país, e por isso que o mundo é um lugar interessante e variado para descobrir. Por isso concordo com Larry quando afirma que morar no Brasil para um estrangeiro não é para principiantes. Morar num país que não é o nosso não é fácil para a maioria das pessoas, e num país como o Brasil é preciso uma força de vontade muito grande e uma determinação forte para se adaptar ao País.
Outro dos pontos que comenta Larry é o fato dos brasileiros quer sempre levar vantagem. Qualquer pessoa que tenha dirigido no Brasil – eu sou um dos afortunados – poderá ter constatado a falta de civismo persistente no país. Cada um só olha para seus próprios interesses e não percebe que forma parte de um conjunto chamado sociedade. Tampouco é algo único do Brasil. Ao mesmo tempo, existem inumeráveis pessoas super queridas e boa gente no cotidiano da vida.
Brasil é um país de extremos. Extrema riqueza de alguns poucos, extrema pobreza de muitos. Classes sócias muito definidas. Gente muito cordial, carinhosa e amada, e ao mesmo tempo não existe nem um dia sem violência e impunidade sem controle. País de contrastes sim, país para principiantes não, más para aqueles que procuram algo diferente na suas vidas, é um país lindo para morar, com todas suas vantagens e desvantagens.
Política
O capítulo sobre política está divido em três partes, a primeira contem artigos sobre política nacional. Sobre esse tema falar o qué? Eu nunca acreditei na política nacional de nenhum país. Sendo eu espanhol, sempre achei a política nacional e local como o que é, uma luta por poder e votos para depois poder exercer esse poder a maioria das vezes para seu próprio beneficio pessoal. Assim que, nada novo aqui no Brasil que não aconteça no resto de mundo, corrupção, clientelismo, interesses pessoais, são por desgraça doenças endêmicas da política nacional em qualquer país do mundo. O único que varia é a proporção do desproposito, mas no fundo a questão é sempre a questão.
A continuação segue uma serie de artigos sobre Lula e Larry. Pelo que se pode deduzir de sua leitura Larry não é um grande admirador de Lula. Achei a maioria desses artigos um tanto pessoais e subjetivos, e mesmo se mostra fatos reais e comenta defeitos do Presidente do Brasil, sinceramente, que político desse calibre não tem? Que político está livre de pecados?

A última parte da seção de política contem alguns artigos sobre a política exterior brasileira. Os artigos em si não são grande coisa, mas as reflexões mostradas no resumo que os antecedem são interessantes. Sobre tudo por apontar erros na política exterior de Lula dos primeiros anos. Politizar Itamaraty ao nomear pessoas de confiança pessoal para cargos que sempre foram para diplomatas, a ingenuidade da política exterior brasileira vis-à-vis a China – mostrando exemplos reais de fracassos que o Brasil teve em negociações com os Chineses– e também mostrar o sucesso do Brasil em aprofundar as relações no hemisfério sul ocidental reforçando o Mercosul e servindo de contrapeso aos EUA no continente sul americano.
Amazônia
Larry descreve como em determinados círculos de opinião no Brasil existem correntes xenofobias com respeito às intenções de países estrangeiros na região. Existe certo preconceito contra os americanos e seus motivos, quando realmente os principais depredadores da floresta Amazônica são de forma crescente os países de Ásia Oriental, em especial a China, que devora quantidades imensas de matérias primas e madeira da região.

E como para qualquer demanda existe uma oferta, legitima ou não, a compra de madeiras nobres do exterior alimenta os negócios não sempre lícitos de muitos empresários locais, alguns deles com conexões políticas importantes. No seu trabalho como repórter Larry sofreu ameaças de morte em alguns das suas reportagens na Amazônia. Também escreveu sobre o trabalho escravo de milhares de pessoas na região, e como apesar de existirem leis sobre a matéria, a situação persiste devido principalmente à desespero econômico de muitas pessoas do Nordeste para as quais trabalhar nas fazendas da Amazônia é sua única alternativa de sobrevivência.

Ciência / Economia
Numa serie de artigos muito interessantes Larry nos narra como o Brasil tem se convertido em uma potencia agrícola mundial, exportando todo tipo de commodities agrícolas a través de um setor do agronegócio cada vez mais importante. Nenhum dos famosos BRICS, exceto o Brasil tem a capacidade de fornecer a quantidade de alimentos que populações crescentes demandam em todo o mundo. Países como a China o a Índia como populações de bilhões de pessoas não possuem os meios físicos nem hídricos para produzir alimentos suficientes para suas populações.
O Brasil tem as maiores reservas de terra fértil e água do mundo, alem de importantes empresas no agronegócio que continuam a expandir suas atividades e investimentos em todo o País. Alem disso, Larry também comenta o papel ativo da Embrapa na pesquisa e desenvolvimento nas áreas do agronegócio e biotecnologia, sendo pioneira mundial na adaptação de todo tipo de cultivos para zonas semi tropicais.

Outra área na qual o Brasil tem uma posição de liderança e na produção de etanol e biocombustíveis. Para qualquer europeu como eu, uma das coisas que mais chama a atenção ao chegar no Brasil é que em todos os postos de gasolina é possível comprar álcool e que a grande maioria dos carros tem motores flex que permitem utilizar tanto gasolina quanto etanol.
Isto permite ao Brasil dispor de uma maior independência energética já que todo o etanol é localmente produzido a base de cana de açúcar. A tecnologia de produção do etanol tem sido desenvolvida no país e estão sendo exportadas a países na África tropical com características climáticas semelhantes ao Brasil.
Na área energética também é destacável o papel da Petrobras, líder mundial em exploração em águas ultra profundas, que está começando a explorar os campos petrolíferos no litoral de Santos e Rio de Janeiro a mais de 7000 metros de profundidade e que proporcionará ao Brasil acesso a reservas de petróleo importantes ate agora não exploradas.

No âmbito aeroespacial o Brasil tem o privilegio de ser uns dos poucos países do mundo a ter sua própria empresa de produção de jatos, a Embraer. Especializada no desenvolvimento e comercialização de jatos de porte médio, é o terceiro fabricante mundial após Airbus e Boeing, tendo superado ao canadense Bombardier em anos recentes.

Por último, e para não ser todo perfeito, já que na realidade nada nunca é, Larry escreve um par de artigos sobre o fracasso do programa nuclear brasileiro e do programa de acesso ao espaço, ambos os programas sob controle das forças armadas brasileiras, e que culminaram no desastre de Alcântara quando um foguete espacial estourou matando vários engenheiros brasileiros.
Conclusões pessoais.
Desde minha humilde opinião, existem elementos diferencias no Brasil que fazem dele uma potencia de porte médio em ascensão. O Brasil tem indústrias de ponta e uma economia muito diversificada. Mesmo assim, nunca chegará a ter o peso geopolítico e econômico da China, nem o arsenal militar da Rússia, pelo que suas projeções internacionais serão mais limitadas que seus os dois países anteriores. Continuará sendo a potencia regional na America do Sul devido principalmente ao seu tamanho e extensão geográfica, mas marginada de triada EUA-Europa-China/Japão que continuarão a modelar em grande medida o mundo do futuro nas relações internacionais.

As elites do País estão bem formadas e preparadas e como de todos é sabido tem setores industriais como os mencionados anteriormente nos que tem um papel de destaque. O principal problema do Brasil, segundo meu ponto de vista, é principalmente as diferenças abismais que existem entre distintas camadas de sua população. É um país em onde uns poucos estão especializados em gerar renda e dinheiro enquanto muitos pobres estão especializados em produzir ainda mais pobres.
O difícil é deter o circulo de pobreza que gera mais pobreza. Existem estudos que apontam que o Brasil se estabilizará em termos demográficos no ano 2025, com 230 milhões de pessoas, 35 mais que na atualidade. Se isso acontecer antes, o Brasil estaria ainda melhor, mas infelizmente, as possibilidades de interromper os círculos existentes de acumulação de riqueza e pobreza são difíceis de materializar em curto prazo. O mais provável é que o país continue crescer economicamente na próxima geração, já que tem todos os elementos para poder desfrutar de um crescimento sustentável, e que as diferenças de renda se atenuem ligeiramente, mas persistam de forma muito visível e palpável. Será um país mais rico no seu conjunto, mais padecendo os mesmos problemas endêmicos que sofre na atualidade.