Blog de Javier Ferrer

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O Mundo Pós-Americano

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O Mundo Pós-americano não é um livro sobre o declínio americano como muitos poderiam imaginar após ler o titulo. Fareed Zakaria, editor da revista Newsweek International, nos narra neste ensaio de fácil leitura como o mundo está mudando de uma configuração de poder bipolar desde a Guerra Fria, a um mundo multipolar onde diversas potencias emergentes atuam cada vez com mais firmeza no tabuleiro do jogo global. O momento unipolar está sendo deixado para atrás à medida que potencias como China, Índia, Brasil e outros muitos países aumentam seu peso econômico, político e militar nos assuntos globais.

O livro começa com um resumo histórico dos principais acontecimentos do último século. As duas guerras mundiais,  a derrota dos movimentos fascistas alemães e italianos e do imperialismo japonês pelos aliados, o impasse e rivalidade entre dois modelos opostos de progresso durante a Guerra Fria – liberalismo e comunismo -  e o colapso deste último, a emergência incontestada dos EUA como super potencia mundial, o momento unipolar americano dos 90 e do começo do século XXI, e para concluir, o tema principal deste livro, que é essencialmente a ascendência do resto criando uma nova configuração de ordem multipolar.

No Mundo Pos-americano Fareed Zakaria nos mostra como mediante essas mesmas instituições internacionais criadas pelos EUA após a II Guerra mundial em Bretton Woods que modelaram o sistema econômico liberal, e mediante a adoção de praticas de negócios ocidentais, países como a China, India, Brasil, Russia, Africa do Sul e outros muitos, apos introduzir as reformas necessárias nas suas instituições e sistemas produtivos nacionais experimentaram  taxas de crescimento econômico que permitiram tirar da pobreza milhões de pessoas em todo o mundo e acrescentar o peso destes países no cenário mundial.

A China é apresentada como a desafiante aos EUA. E o único país do mundo com ambições e capacidades para suplantar os EUA como primeira economia mundial, acontecimento que terá lugar em meados deste século XXI. A China já se percebe como alternativa aos EUA, já que seu sistema econômico de “capitalismo com características chinesas” – como as elites do País o denominam – está conseguindo resultados econômicos importantes neste país de dimensões continentais.

Para qualquer pessoa que tenha visitado, estudado ou residido na China, o fato de que os chineses se percebem a si mesmos como próxima superpotência mundial é algo visível no cotidiano da vida deste país.  No curto prazo, ao menos na próxima geração populacional, ou seja, aproximadamente nos próximos 25 anos, a China não vai contestar os EUA de forma direita já que são bem cientes das limitações que ainda tem como pais. Um PIB per capita reduzido, centenas de milhões de pessoas em condições de pobreza, investimentos em infra estrutura por realizar, uma modernização das indústrias e sistema educativo, a sustentabilidade política do regime comunista, farão que na próxima geração a China continue a ser bastante introspectiva devido aos varios problema e desafios que tem a superar.

Mesmo assim, continuaram de forma progressiva, sutil e diplomática a procurar todos os ganhos possíveis no âmbito internacional, espalhando suas empresas pelo mundo inteiro, procurando acesso a mercados e matérias primas onde seja possível, concorrendo  com seus homólogos ocidentais. Para os políticos e dirigentes chineses o mundo já é e vai ser ainda mais durante as próximas décadas um sistema multipolar G2 composto por EUA e a China na liderança de muitas questões globais.

A Índia é apresentada por Fareed Zakaria, sendo ele mesmo indiano naturalizado nos EUA, como a aliada. A Índia, a maior democracia do mundo, começou a experimentar taxas de crescimento importantes após a abertura econômica dos anos 90 e também e considerada uma das grandes potencias econômicas em ascensão. As pretensões e capacidades de Índia são bem mais limitadas que a China.

O próprio sistema democrático limita a velocidade na introdução  de reformas econômicas no País. Se a China é mostrada  como um caso de sucesso de reforma de cima para baixo, onde o motor principal das mudanças é o Partido Comunista, na Índia a realidade é justamente o inverso, a modernização do País tem surgido de um processo de baixo para cima, onde a iniciativa tem sido promovida por atores do setor privado como as multinacionais e não pelo governo que em muitas ocasiões dificilmente pode promover políticas procrescimento com a mesma agilidade que seus homólogos chineses devido principalmente aos conflitos de interesses entre os distintos partidos, algo por outro lado natural num sistema democrático.

Nos restantes capítulos do livro Fareed Zakaria nos narra como apesar da crescente importância de países emergentes no cenário político e econômico global, os EUA ainda possuem a liderança em campos críticos como biotecnologia, nanotecnologia, tecnologias militares, ensino superior, investigação e desenvolvimento, seu sistema política e instituições que permitiram que os EUA continuem a ser a superpotência no próximo século.

O livro fala bem pouco sobre o Brasil. Desde minha humilde opinião como europeu morando no Brasil e tendo estudado na Europa e China questões internacionais, o Brasil já é de fato a potencia regional no America do Sul. Em termos econômicos e políticos não existe nenhum pais no hemisfério sul ocidental que possa contestar a hegemonia brasileira. Historicamente a Argentina pretendeu ter um peso preferente nas políticas do hemisfério sul, mas após anos de péssima gestão econômica e políticas populistas o país está endividado e em declive. E a ALBA de Hugo Chávez dificilmente é uma alternativa viável e sustentável nem modelo econômico a seguir.

Para um europeu como eu, uma das coisas mais evidentes quando se mora no Brasil, é que a economia do País é uma economia real, baseada em indústrias exportadoras que produzem produtos reais, e não uma economia especulativa inflacionista e insustentável como a espanhola e tantas outras européias, onde na ultima década se produziam poucas coisas de valor real. Os efeitos devastadores de tanta especulação estão sendo  sentidos agora e perduraram por muitos anos.

E bem certo que países como China e Brasil, de dimensões continentais, enfrentam numerosos desafios. A escala nas dimensões geográficas destes países faz que seja impossível que não existam diferencias de renda entre regiões. Mesmo em países europeus pequenos essas diferenças entre regiões também são bem visíveis.  As diferencias entre classes sóciais são muito mais visíveis que em países desenvolvidos, o que produz níveis de violência mais altos, mas o que se percebe tanto aqui quanto na China é o dinamismo da sociedade, a vontade de progredir, a vontade de melhorar como país, algo que em muitos países europeus se tem perdido faz tempo.

Concordo plenamente com Fareed Zakaria no seu conceito da ascensão do resto. O mundo não vai ser mais unipolar já que os EUA não têm mais a capacidade de fazer tudo o que eles quiserem quando desejar.  Na Asia Oriental a China cada vez tem e terá mais influencia em todas as questões regionais, igual que a Russia na Eurasia, a India na Asia do Sul, e o Brasil na America do Sul. A ascensão de todas essas potencias é inevitável dada à pujança de suas populações. Acredito que neste século XXI viveremos num mundo mais plural em termos de difusão do poder e renda, mas não por isso menos perigoso e isento de conflitos.

A edição brasileira do livro está disponível nas principais livrarias do Brasil, tipo Saraiva, e tem sido publicada pela Companhia das Letras. É uma leitura muito recomendável para todos os públicos, de fácil e rápida leitura e interessante no argumento exposto. Espero desfrutem dela tanto quanto eu.

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Escrito por Javier Ferrer

14 mayo, 2009 a 1:01 pm

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